04/01/16

Psicopedagogia e literatura (Rodas de Leitura Reflexiva)

Oito Ventos, produção audiovisual capixaba que perfaz um circuito ficcional transitando entre a dor, a fé e a esperança (por Renata Bomfim)


“Mantenha-se inabalável diante do sopro dos oito ventos!”, orienta o tratado sobre o Sutra do Estágio do Estado de Buda. A fartura, a glória, o prazer, assim como a derrota, o sofrimento e a decadência são descritos na tradição budista como “ventos” aos quais o ser humano é exposto durante a vida, devendo perante eles manter-se impassível. Mas, nem sempre a alma resiste, e o ser acaba sendo arrastado para lugares de onde é difícil retornar. É assim que, muitas vezes, o mundo das drogas, esse vento bravio e impiedoso, arrasta não apenas a pessoa dependente da substância psicoativa, mas também familiares, amigos, conhecidos.

Oito Ventos é uma obra capixaba da gema, digo isso com orgulho mátrio, constatando a qualidade técnica e estética das produções que vem surgindo no nosso Estado, seja nas artes plásticas, na literatura, na música, etc. Essa obra híbrida, − produção audiovisual que mescla música, entrevistas, fotografia, ficção, performance e poesia −, é um curta-metragem que descortina perante nossos olhos o sensível de um mundo obscuro, cercado por estigmas e preconceitos.

O videoclipe teve cenas gravadas na Avenida Carlos Lindenberg, em Vila Velha. Nele foram utilizados os pontos de luz dos postes para criar uma atmosfera urbana e pouco definida, padrão estético e visual que segue a linha documental, captando a luz ambiente e incorporando cenas externas gravadas com lentes próprias. Segundo o diretor Luiz Eduardo Neves, busca-se um “visual cru, que se aproxima das produções do diretor José Padilha”.

Transformar a dor em poesia é apanágio dos artistas. É isso que encontramos nessa obra lançada em maio deste ano. O diretor entrevista mães de dependentes químicos auscultando seus medos, ansiedades, esperanças. É comovente ver a força e a fé dessas mulheres que vivem orando, lutando, que se propõe a descer ao inferno para resgatar seus filhos das garras da morte: luta muitas vezes inglória.

As relações vivenciadas na trama são conturbadas, conflituosas, mas, num átimo, o caos cede e sentimos, dentro de nós, raiar um fiapo de esperança, afinal, como diz a composição do rapper Aliado Jota “Demorou, mas eu dei valor a minha esperança, minha mãe me ensinou como se enxerga à distância”. O papel das mães, nessa obra, é preponderante. Depoimentos verídicos das senhoras Maria Deia da Costa, Josefa Maria da Silva, Doralice Pereira dos Santos e Rita Santos, captam de forma sensível, aflições, medos, questionamentos e esperanças que são também a de milhares de outras mães espalhadas pelo Brasil e pelo mundo.

A letra de Oito Ventos é contextualizada a partir dessas múltiplas vozes femininas potentes em amor e resiliência. Dona Maria Deia da Costa, de 68 anos, compartilha com o expectador a luta para manter uma casa, visto que é arrimo de família, e a apreensão de que algo de pior acontecesse com Joberth da Costa, seu filho: “Eu sou uma mãe muito preocupada, porque a gente cria um filho assim, sem um pai presente é complicado. É muito difícil mesmo”; já Dona Rita Santos, de 51 anos, mãe de Rafael e Rafela, ressalta a importância do perdão após a decepção: “Depois de pensar onde você errou é hora de dar outra oportunidade. Filho é sempre filho. Independente que o mundo não acredite nele”.

É assim, de passo em passo o amor vai rasgando a grossa camada da indiferença social e do medo e o protagonista passa a perceber que há possibilidade de recuperação, que “a fé cicatriza as feridas”, que é possível, embora não seja fácil, outra forma de viver: “Ame a você mesmo, sempre fique de pé, a maldade está aí pra testar a sua fé. (...) A vitória começa a partir de agora, o que passou, passou, o mundão tá lá fora”.

Oito Ventos revela um semblante diferente, e pouco conhecido, da pessoa portadora de dependência química, geralmente desumanizada pela sociedade, “um lokão no submundo”. Vislumbramos um impulso que surge impelindo-o a buscar a vida: a parte do seu ser não adoecida. Como bem destacou o sociólogo Zigmunt Bauman, em uma sociedade narcótica, de consumidores, onde “ninguém pode se tornar sujeito sem primeiro virar mercadoria” a subjetividade está constantemente ameaçada, mas, segundo esse pensador, já deveríamos ter aprendido que “o transe existencial humano é incuravelmente ambivalente, que o bem está sempre combinado ao mal, que é impossível traçar com segurança a linha entre a dose benigna e a venenosa de um remédio para nossas imperfeições”.


A arte articula humanidades concretas, por meio dela as determinações sociais podem ser transcendidas, o caráter da arte é emancipatório, pois ela evoca imagense necessidades de libertação que penetram e tocam a profunda dimensão do nosso ser.  É por isso que são bem vindas produções que adejam novos devires, contestando a “pureza” da civilização contemporânea, criando um “barato” diferente: o prazer estético que é gerador de uma satisfação artística integradora. A arte se imbrica na vida, é por isso que o autor do rap que empresta o nome ao videoclipe declara: “uma nota, uma prece, vamos para a guerra, meu paraquedas, irmão, não tem reserva. (...) Se eu cair mil vezes, me levanto mil e uma”. 

Renata Bomfim
Poeta e arteterapeuta

Ensaio publicado no Caderno de Cultura "Pensar", do Jornal A Gazeta/ES
dia 26/12/2-15