A SAÚDE MENTAL pressupõe bem mais que a ausência de transtorno mental, antes, é um conceito que se relaciona com qualidade de vida cognitiva e com equilíbrio emocional. O sofrimento psíquico pode se expressar de variadas maneiras: angústia, ansiedade, tristeza, depressão e, no corpo, sob a forma de transtornos psicossomáticos. Acolhemos e tratamos, de forma multidisciplinar, pessoas que necessitam de apoio. Nosso Espaço oferece atendimento individual, grupos terapêuticos e variadas oficinas terapêuticas.


25/06/14

Imagens do seminário da Semana Estadual sobre Drogas: EU ESCOLHI VIVER BEM (25 a 29 de junho de 2014)

SEMINÁRIO INTERSETORIAL PARA A FORMAÇÃO DE MULTIPLICADORES DE PREVENÇÃO AO USO DE DROGAS (HUMANIZAÇÃO E EFETIVIDADE DO TRATAMENTO)

AS OFICINAS TERAPÊUTICAS COMO INSTRUMENTOS LÚDICOS DE INTERVENÇÃO TERAPÊUTICA E DE HUMANIZAÇÃO NOS SERVIÇOS DE ATENÇÃO Á SAÚDE

Quero agradecer a Coordenação Estadual sobre Drogas (CESD) pelo convite, e aos amigos que prestigiaram o evento.

O meu percurso como profissional de saúde mental começou em janeiro de 1999, quando ingressei na oficina terapêutica de pintura do CAPS/ Ilha de Santa Maria, como membro do Programa de extensão da UFES, Cada Doido com Sua Mania/ CDSM. Nessa época eu era estudante de artes plásticas. Essa experiência marcou a minha vida, e desde então passei a direcionar a minha formação para campo profissional da saúde mental. A década de 1980 e 1990 foi de efervescência no campo da assistência à saúde mental, por conta da “reforma psiquiátrica” brasileira, movimento que culminou com a promulgação da Lei de Saúde Mental, em abril de 2001[1]
No Espírito Santo o Hospital Psiquiátrico Adalto Botelho, fundado em 1954, durante muito tempo reproduziu a realidade de outros manicômios brasileiros: era um depósito de gente, centro de exclusão. Séculos de funcionamento dos manicômios mostraram que esse modelo asilar e excludente inviabilizava as ações de humanização e, posteriormente de melhora dos indivíduos e, consequentemente, tornava praticamente impossível a reinserção social dos mesmos. A necessidade de se resgatar a cidadania do dito “louco”, fez com que nesse período um grande escopo de práticas e saberes se desenvolvesse: assistimos ao nascimento de uma nova clínica, na qual a loucura não é o lado avesso negativo da razão, antes, uma outra forma de subjetividade que foge ao padrão considerado “normal”. Um breve olhar sobre as oficinas terapêuticas no Espírito nos remete, irremediavelmente, para o trabalho pioneiro do Programa Cada Doido Com a Sua Mania, do qual fiz parte entre os anos de 1999 e 2007. Esse programa nasceu no centro de Psicologia da UFES e convocou psicólogos, artistas, arquitetos, advogados, e outros campos do saber para integrar a rede de atenção de saúde mental capixaba. O CDSM ingressou no Hospital Adalto Botelho em 1984, nessa época, o projeto se chamava “Grupos operativos” (Atendimento individual, entre outros). Em 1886 o grupo inseriu aos grupos operativos as oficinas terapêuticas com pacientes internados e 1992 passou a ser chamado Cada Doido Com Sua Mania, o Adalto Botellho ofereceu Oficina de Pintura, de eventos, entre outras. O CDSM, desde sua criação, trabalhou por uma clínica cujas práticas interdisciplinares gerassem uma cultura profissional mais humanizada e adequada ao contexto da saúde pública articulada à formação profissional em diferentes níveis, a saber, ensino, extensão e pesquisa. Com o fim do contrato entre a Universidade Federal do Espírito Santo e o Governo do Estado, o CDSM sai do Hospital Aldalto Botelho para, junto com a equipe de saúde mental da Prefeitura Municipal de Vitória/ SESA, estruturar o primeiro CAPS capixaba: o CAPS Ilha de Santa Maria, fundado em 1996, em Vitória. O CAPS é um modelo de assistência substitutivo ao modelo hospitalocêntrico representado pelos manicômios. Nele o paciente passa o dia e a noite volta para casa. O CAPS Ilha de Santa Maria foi uma escola para mim, e essa experiência estruturação e realização de oficinas terapêuticas seriam enriquecidas nos demais serviços por onde passei, a saber, o Ambulatório de saúde mental para crianças e adolescentes, no Hucam, que tinha como objetivo ser o primeiro CAPSi do ES; o Centro de Atenção para Crianças, Jovens e adultos, CACIA/ UFES, quando a clínica da psicose se abriu para a da neurose. Em 2007 as oficinas terapêuticas de poesia realizadas com diferentes grupos despertaram o desejo conhecer mais profundamente esse campo da linguagem, o poético, ingressei então no mestrado de letras da UFES e, em 2010, no doutorado de letras, intervalo temporal no qual a minha prática com oficinas terapêuticas se diversificou. Atualmente desenvolvo as oficinas terapêuticas no Mosteiro Zen Morro da Vargem, em Ibiraçu/ES, no ESTARTE e em organizações públicas e privadas.
A arte contribui para uma clínica mais criativa, fundamentada num olhar menos comprometido com a patologia e mais implicado com o humano. As Oficinas Terapêuticas são ferramentas privilegiadas de intervenção e tratamento terapêutico que estão ao alcance de todos, e que junto a outros serviços permitem uma cobertura mais ampla, não somente do paciente, mas também de sua família. Atividades que possuem um caráter desinstitucionalizante, as oficinas terapêuticas se ligam a um paradigma diferente do dualista cartesiano que marcou a sociedade e se refletiu em vários campos do saber humano. Nesse novo paradigma, os indivíduos buscam se reconhecer como BIOPSICOSSOCIAIS e espirituais, ou seja, seres que inter-relacionam suas partes psíquica, física, social e espiritual. As ações desenvolvidas nesse serviço devem, fundamentalmente, passar pelo caminho da inserção dos pacientes,
1.         Acredito que o marco primeiro da oficina terapêutica é que seja um espaço dialógico de acolhimento e de livre expressão.
2.        O trabalho coletivo, o agir, o pensar, o refletir a partir de uma lógica inerente ao paradigma psicossocial, na qual a diversidade, a subjetividade e a capacidade de cada indivíduo é respeitada, são alguns dos objetivos das oficinas terapêuticas.
3.      Os encontros nas oficinas devem produzir relações horizontais e de aprendizagem a partir das quais, pacientes e equipe, devem ter como foco o desenvolvimento da autonomia do paciente, passo importante para que esse se reconheça como cidadão (alguém com nome, com data de nascimento, com direitos, inclusive direito ao sonho, e não mais um número na estatística, uma patologia, “lá vem o bipolar”). O sociólogo Zigmunt Bauman, pesquisador dos fenômenos sociais contemporâneo, destacou que somos: “uma sociedade de consumidores”, vale destacar que as oficinas terapêuticas são uma forma de resistência ao sistema social vigente de consumo, elas colocam o individuo no mundo da produção, tanto de algo (documento plástico terapêutico), quanto de si mesmo. Ou seja, torna possível uma identidade outra.
4.        O trabalho a partir do campo simbólico permite a transformação da realidade objetiva, campo propício para a expressão da singularidade e subjetividade.
5.        Durante as oficinas os pacientes interagem uns com os outros e com os materiais e técnicas.
6.        O s conflitos internos e externos podem se projetar a partir do material, e a partir daí podem ser elaborados: os afetos podem ser catalizados.
7.        Essa prática propõe facilitar, por meio das múltiplas possibilidades da arte, a expressão da singularidade e da subjetividade, num espaço de convivência, criação e reinvenção do cotidiano.
8.        A oficina terapêutica não objetiva formar artistas, antes facilitar a expressão subjetiva dos seus participantes. Existem as oficinas de geração de renda, essas possuem objetivos específicos e importantes dentro dos serviços de saúde, pois, buscam capacitar os participantes em uma determinada prática, ou na produção de algo que pode ser comercializado, com vistas a que esse se insira no mercado de trabalho, e ganhe alguma autonomia (entre elas a econômica).
9.        Busca-se empoderar a pessoa por meio das práticas artísticas, enriquecê-la a partir da troca de conhecimentos, para que desenvolva uma postura crítica que o leve a tomar as melhores escolhas para a vida.
10.    Essa prática é lúdica, envolve o brincar e o aprender, ela é também catártica e, segundo a psicanálise, possibilita uma suplência subjetiva, ou seja, permite que o sujeito encene algo no plano simbólico, para que não seja necessário que o faça no plano real. Estudos mostram que a representação não é uma mentira, e nem uma ilusão, antes, ela é uma realidade outra que lança o produtor/expectador em um mundo intersticial, paralelo, onde tudo é possível, até mesmo as grandes mudanças de rumo na vida.

Obs: As oficinas devem resguardar essas características para que não se tornem um serviço de “ocupação do tempo”, mais uma “tarefa a ser cumprida”, por isso os pacientes devem ser partícipes de todas as etapas do trabalho, e deve-se evitar “programar” as atividades, essas devem ser flexíveis (case “Arte de viver”)

[1] Lei nº10.216, de 6 de abril de 2001, que dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental.









Fomos presenteados com a apresentação do coral do Instituto Sócio-Educativo do Espírito Santo. E deixo aqui o meu carinho aos colegas que dividiram comigo a mesa durante a tarde: Laelio Loureiro Del Pupo, da Comunidade Nova Perspectiva; Silvestre Falcão Santana, da Comunidade "Pequena Comunidade Jesus" e Clesio de Oliveira Venâncio, que apresentou os novos arranjos que estão possibilitando a melhora da Assistência à saúde em Cariacica. Meu abraço carinho, também, aos amigos Juliene, Robson, Norlen e a nova amiga Helena de Arruda Penteado, da "Rede Abraço".

16/06/14

EU ESCOLHI VIVER BEM: Semana Estadual Sobre Drogas (25 a 29 de junho de 2014)

Olá, amigos,

O Governo do Estado do Espírito Santo, por meio da Coordenação Estadual sobre Drogas– CESD, e do Conselho Estadual sobre Drogas- COESAD, promoverá a Semana Estadual sobre Drogas, no período de 25 a 29 de junho de 2014, conforme programação em anexo. As inscrições serão feitas no local do evento.

Os trabalhos estão em consonância com as diretrizes da Secretaria do Ministério da Integração Nacional de Política sobre Drogas– SENAD e da Política Nacional de Saúde Mental.


Em breve compartilharei o texto da minha comunicação nesse evento, 
sobre as oficinas terapêuticas. SEgue  aprogramação detalhada do dia 25/06:

Local: Teatro Universitário da Universidade Federal do Espírito Santo – UFES
Data: 25/06/2014

08:00h - Credenciamento
08:30h - Composição mesa autoridades
09:30h - Mesa Redonda 1 – “Experiências Positivas de Prevenção”
Mediadora: Clotilde Castro Tóffoli
Tiago Cardoso: Prevenindo o Uso de Substâncias Psicoativas na Escola: O Caso Suzete Cuendet – CEPAD/UFES;
Caroline J. Pinto: “Mudando o rumo das Perguntas: A inclusão dos saberes juvenis no cotidiano escolar dos alunos da Escola Maria de Novaes Pinheiro: Estratégias de prevenção primária da violência no espaço escolar”;
Adriana Madeira: “Rede do Bem Capixaba, uma experiência de prevenção” – UFES;
Glauber Alvarenga Resende: “Plano Terapêutico do Serviço de Acolhimento” – CESD.
11:00h - Debate
12:00h - Almoço
14:00h - Apresentação Cultural: Instituto Sócio-educativo do Espírito Santo
14:30h - Mesa Redonda 2 – “Humanização e Efetividade do Cuidado”
Mediador: Glauber Alvarenga Rezende
Laelio Loureiro Del Pupo: “Efetividade e Humanização nos Acolhimentos e Reabilitação em Dependência Química" – Comunidade Nova Perspectiva;
Silvestre Falcão Santana: “Sete Passos do Processo Terapêutico de Recuperação” – Comunidade Pequena Comunidade de Jesus;
Renata Bomfim: As Oficinas Terapêuticas como instrumentos lúdicos de intervenção terapêutica e de humanização nos serviços de atenção básica à saúde;
Clesio de Oliveira Venâncio: Integralidade da atenção básica: a proposta de Cariacica – PMC.

16:00h - Debate

17:00h - Encerramento

12/06/14

ESTARTE: Consultório de Saúde Mental em Vitória, Espírito Santo/ES/ Tel:. (27) 995.7474.10)



A SAÚDE MENTAL pressupõe bem mais que a ausência de transtorno mental, antes, é um conceito que se relaciona com qualidade de vida cognitiva e com equilíbrio emocional. 

O sofrimento psíquico pode se expressar de variadas maneiras: angústia, ansiedade, tristeza, depressão e, no corpo, sob a forma de transtornos psicossomáticos. 

Acolhemos e tratamos, de forma multidisciplinar, pessoas que necessitam de apoio. Nosso Espaço oferece atendimento individual, grupos terapêuticos e variadas oficinas terapêuticas.

Conheça as nossas OFICINAS TERAPÊUTICAS

01/06/14

CINE ESTARTE: "O primeiro da classe", a história de um menino com síndrome de tourette


"O primeiro da classe" é um filme emocionante que conta a história verídica de Brad Cohen, menino que ainda na pré-adolescência desenvolveu a síndrome Tourette. O filme aborda a luta do menino para ser aceito, até mesmo pelo pai. Fala sobre a ignorância das pessoas frente aos transtornos mentais. é um filme que aquece o coração pela esperança e perseverança do jovem em conquistar os seus objetivos, entre eles, ser professor e encontrar um amor. Recomendo que assistam, acredito que vãos gostar.
Abraços... *Renata Bomfim

Seja bem vindo ao 
CINE ESTARTE

Lidando com o autismo. O curta "Infinito particular" é um relato emocionado de pais que aceitaram o desafio de lidar com o autismo, motivados pelo amor por seus filhos


31/05/14


O Programa "Estarte Social" disponibiliza vagas para atendimento terapêutico gratuito à comunidade capixaba


O Programa ESTARTE SOCIAL tem disponiveis algumas vagas para atendimento terapêutico gratuito. Os interessados devem nos escrever e se identificar (nome, idade, onde mora, e a principal queixa que o leva a buscar tratamento). Os casos serão analisados. Nosso e-mail: renatabomfim2006@gmail.com  
Atenciosamente,
Renata Bomfim 


26/05/14

Impactos do ambiente citadino na saúde mental (por Renata Bomfim)


O ambiente no qual vivemos impacta nossa saúde mental. A reportagem “Cidades enlouquecidas” chamou a minha atenção. Nesse texto o autor destaca pesquisas que indicam o quanto o ritmo de vida das grandes cidades influencia, geralmente de forma negativa, nos processos psíquicos e orgânicos (entre eles a memória e a capacidade de concentração), dos indivíduos; aumentando, consideravelmente, as possibilidades do desenvolvimento de depressão, de ansiedade e de esquizofrenia. Pesquisas em diferentes universidades, indicam a relação próxima entre os distúrbios mentais e as pressões sociais. Na Universidade de Cardiff, por exemplo, o psiquiatra Stanley Zamit descobriu, ao analisar cerca de 200 pacientes, que variados fatores urbanos, como a imigração, por exemplo, potencializam o isolamento das pessoas. Muito do estresse vivido pelos indivíduos que moram em cidades agitadas são confundidos com transtornos mentais. Nem todos os habitantes das cidades desenvolvem transtornos do humor, mas, algumas pessoas são afetadas de forma mais drástica pela superestimulação crônica do estresse.



Segundo o Dr. Zamit, “pessoas nascidas e criadas em grandes cidades estão expostas a maiores riscos de desenvolver esquizofrenia”. A comunidade científica demonstrou que “a carência de paisagens verdes, o excesso de ruídos, e outros aspectos ambientais” afetam as funções do córtex cerebral. A maioria de nós já nasce inserida na rotina da vida citadina, e logo cedo somos iniciados em variadas formas de pressão social. Então, devemos nos cuidar!

Podemos criar, dentro do caos urbano, ilhas de relaxamento e alívio do estresse e estratégias de bem viver. Por isso é importante cuidarmos dos ambientes, da casa, do trabalho, buscar a tranquilidade, cultivar a paz e o bem viver.

Devemos cuidar para que as nossas cidades sejam projetadas para propiciar a saúde e não a doença!

Exigir que a lei seja cumprida, e que sejam construídos parques coletivos, áreas de esporte e lazer com árvores. É muito importante que cuidemos das árvores que dividem moradia conosco nas cidades, pois, além de serem organismos vivos, elas nunca estão sozinhas, abrigam pássaros, refrescam e humanizam o ambiente. Eu amo as árvores, as considero um presente de Deus, é até difícil enumerar os benefícios que as árvores trazem para a vida humana, benefícios esses que transformam um rachadinho na calçada em absolutamente “nada”!  Outras posturas são fundamentais para uma vida feliz nas grandes cidades, entre elas manter a proximidade com amigos, cultivar uma vida cultural, quem sabe instituir uma rotina que inclua ir ao teatro, a um show musical, fazer aula de dança, de pintura, caminhar na praia, enfim...  essa felicidade se constrói e, associada à criatividade, ela pode tornar a nossa vida muito mais bonita!

Renata Bomfim

fonte: Revista Mente&Cérebro (nº 225, ano XX ) 


Depressão? Busque ajuda!


A depressão é um mal que assola cerca de 121 milhões de pessoas no mundo e já considerado um problema de saúde pública. A complexidade desse mal torna o seu enfrentamento um desafio, especialmente em função da banalização dos seus sintomas e da falta de conhecimento a respeito da doença. Historicamente vemos que o desencantamento e a tristeza presentes na vida humana, como uma sombra. Esse tema foi e continua sendo cantado em verso e prosa pelos escritores, como mostra, por exemplo, o antológico soneto “Castelã da tristeza[1]”, da poetisa portuguesa Florbela Espanca: “Altiva e couraçada de desdém, / Vivo sozinha em meu castelo: a Dor!/ Passa por ele a luz de todo o amor.../ E nunca em meu castelo entrou alguém!”. Na antiguidade Hipócrates (460- 370 a. C.) designou que quatro humores seriam responsáveis por esse mal-estar: a bílis negra, a amarela, o sangue e pituíta. O quarteto responderia pelo equilíbrio humano, sendo o desequilíbrio dessas substâncias, o responsável pelas doenças, entre elas a melancolia cujos principais sintomas eram a tristeza e o medo. Aristóteles (384- 322 a. C.) postulou que a melancolia era inerente ao ser humano, e associou o mal, especialmente, aos artistas. A teoria de Hipócrates vigorou durante a idade média e o Renascimento, apenas foi posta em xeque durante o classicismo, quando a causa da melancolia deixou de ser relacionada às substâncias, e vinculadas a fatores presentes no homem como a amargura, a tristeza e a solidão. Na segunda metade do século XVIII, o médico francês Philippe Pinel (1745- 1826) passou a estudar os fenômenos da melancolia/tristeza, do ponto de vista médico, ou seja, analisando os seus sintomas. O termo melancolia perdeu força e foi sendo substituído. O psiquiatra Emil Kraepeling (1856-1926) direcionou os seus estudos para o que chamou de “psicose maníaco-depressiva”, e desde então a psiquiatria passou a utilizar a palavra depressão ao invés de melancolia. A poetisa portuguesa Florbela Espanca tem um soneto chamado “Neurastenia”, que faz parte da obra Livro de Mágoas, de 1919, e diz:

Sinto hoje a alma cheia de tristeza!
Um sino dobra em mim Ave-Maria!
Lá fora, a chuva, brancas mãos esguias,
Faz na vidraça rendas de Veneza ...

O vento desgrenhado chora e reza
Por alma dos que estão nas agonias!
E flocos de neve, aves brancas, frias,
Batem as asas pela Natureza ...

Chuva ... tenho tristeza! Mas porquê?!
Vento ... tenho saudades! Mas de quê?!
Ó neve que destino triste o nosso!

Ó chuva! Ó vento! Ó neve! Que tortura!
Gritem ao mundo inteiro esta amargura,
Digam isto que sinto que eu não posso!!...

O termo neurastenia foi introduzido pelo neurologista George Beard (1839- 1883), contemporâneo de Kraepeling, ela era considerada uma doença da modernidade, fruto das mudanças sociais impulsionadas pela revolução industrial. A neurastenia tinha como sintoma um cansaço exacerbado, e os fatores desencadeadores da mesma deixaram de ser, preponderantemente, orgânicos, e passaram a ser, também, sociais e culturais.
 Sigmund Freud (1856- 1939), no final do século XIX, construiu categorias e criou uma nomenclatura para termos para designar maus estares vinculados a angústia e ao sofrimento, entre eles depressão, depressão melancólica, melancolia e melancolia cíclica. A mirada freudiana mostra a dificuldade em reduzir um mal multifacetado com uma terminologia única. Mais uma vez o fator social foi priorizado como desencadeador do sofrimento. Essa postura foi contestada por Pierre Janet (1859-1947), psicólogo e médico que defendia que a raiz do mal era orgânica e inata. Os estudos do século XX tiveram como base esses pontos de vista sobre a doença. Na contemporaneidade a depressão é vista como uma doença que possui raízes tanto orgânicas, quanto sociais. O psiquiatra Ricardo Moreno, do Programa de transtorno Afetivos do Instituto de Psiquiatria do Hospital das clínicas (IPQ), afirma que “depressão é uma doença que tem como base uma disfunção química do cérebro, ou seja, os sistemas de neurotransmissão são comprometidos”. A tristeza, a angústia, a melancolia, são fatores que associados à herança genética, formam o quadro da depressão. Segundo esse estudioso, nos 40% dos pacientes com depressão há fatores genéticos envolvidos, e os fatores sociais não são considerados a causa da doença, mas, o seu desencadeador. Muitos estudiosos conferem a fatores biológicos a primazia para o desencadeamento da depressão, entretanto, outros profissionais divergem desse ponto de vista, e atribuem maior peso no desencadeamento da doença a fatores psicossociais. Maria Silvia Bolguese, psicanalista membro do Instituto Sedes Sapiens, acredita que “interessa ao psicanalista compreender a reação depressiva como reveladora de um mal-estar do sujeito diante da vida, das condições internas e externas para estruturar e viabilizar a sua vida”. Essa postura confere a subjetividade (suas vivencias e história) um lugar de importância na instalação da doença e na forma com que a pessoa vai lidar com ela. A Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) acredita que 9% dos brasileiros sofrem com a depressão. Um problema grave, também, é a desinformação e a falta de políticas públicas preventivas, e de esclarecimento da doença, da mesma maneira como a que foi feita com as DSTs, gripes, etc. A rede de cuidados primários, no Brasil, deixa a desejar. Segundo a Anvisa, entre os anos de 2004 e 2008 o faturamento das industrias farmacêuticas aumentou 65% com a venda dos antidepressivos. O uso indevido dos medicamentos, segundo Luiz Alberto Hetem, da Associação Brasileira de Psiquiatria, é um sintoma contemporâneo que mostra a “medicalização do sofrimento”, pois, “as pessoas não aceitam mais ficar tristes, ter dor, passar momentos de angústia”, e os remédios são uma forma se “combater as emoções normais”. Vale destacar que apenas 1/3 dos indivíduos com depressão busca tratamento. Como observamos, a depressão é uma doença, não é uma tristeza corriqueira que dá e passa. Embora essa doença crie para a pessoa um cenário apocalíptico, como se não houvesse uma saída possível, como se fosse o fim, não é o fim, existe tratamento. O termo “cliente” quer dizer “aquele que se inclina” para receber ajuda. Essa inclinação não tem nada haver com submissão ou rebaixamento, antes, é um ato de coragem por parte do indivíduo, mostra o poder da sua humanidade e, é uma humildade saudável, benigna que também pode ser chamada de “amor”.
Renata Bomfim


[1] Florbela Espanca, Livro de Mágoas (1919).

Dicas para manter uma boa memória: a neuróbica (por Renata Bomfim)

Conheça a nossa
OFICINA DA MEMÓRIA
Olá amigos, 

Segundo a Mitologia grega a titã Mnemósine (personificação da Memória) é filha de Urano (Céu) e de Gaia (Terra). Essa deusa é a mãe das nove musas, o seu pai é Zeus, Deus dos deuses: Calíope (Poesia Épica), Clio (Historia),Érato (Poesia Romântica), Euterpe (Música), Melpômene (Tragédia),  Polímnia (Hinos),   Terpsícore (Dança), Tália (Comédia), Urânia (Astronomia). Mnemósine era aquela que protegia o ser do esquecimento representado pelas águas do rio Lete (que passava bem no centro da terra dos mortos, o Tártaro). As almas que iriam reencarnar bebiam das águas desse rio, ou se banhavam nelas para esquecer da vida anterior.

Bem, sabemos que os mitos contam histórias verdadeiras sobre a nossa realidade interior. E não é verdade que uma boa memória é responsável por magníficas produções? Não é a cultura um acervo dessa memória universal, que nos lega musicas, danças, histórias? Enfim, os problemas de memória afetam bem mais que a lembrança de alguns acontecimentos pessoais vividos, eles afrouxam  os vínculos comuns que nos unem socialmente, e estruturam a nossa identidade social.

Todos os indícios de problemas relacionados à memória devem ser investigados, atenção! Não menospreze os sintomas, consulte a um especialista. 

Mas, podemos contribuir para com a saúde da nossa memória com alguns exercícios simples, que podem, e devem ser inseridos na nossa vida cotidiana. Vale destacar que a medicina contemporânea vem derrubando preconceitos sobre o envelhecimento. Sabemos, por exemplo, que no nosso cérebro as células continuam sendo geradas independente da idade. Parte dos problemas de memória não se deve à morte dos neurônios, antes, a má conexão entre eles, ou seja, a redução do número das dendrites (prolongamentos ramificados das células nervosas que recebem e processam as informações das outras células nervosas, formando a base da memória). Essa dificuldade de conexão (sinapses) podem dificultar, tanto o registro de novas memórias, quanto, a recuperação das memórias antigas.

A neuróbica, palavra que alude ao exercício físico, propõe algumas práticas para manter o cérebro ativo, evitando a perda da memória e fortalecendo as conexões (sinapses). Ela objetiva, também, que outros padrões associativos sejam criados. 

O NOSSO CÉREBRO GOSTA DE NOVIDADES












Reagimos ao inesperado, ao inusitado. Estamos projetados, como espécie, para tal. Mas, a vida contemporânea incentiva, muito mais, a adoção de uma rotina metódica, e "tranquila", do que de uma vida criativa, "menos cômoda", tanto que algumas vezes nos pegamos vivendo como se estivéssemos "no automático".

Ao reagirmos a uma novidade, a atividade cortical aumenta consideravelmente em variadas partes do cérebro, fortalecendo as funções sinápticas. Esse é o princípio da Neuróbica: exercitar o cérebro oferecendo-lhe novidades: uma nova música, atividades variadas que geralmente você não faria, como aprender um novo idioma, aprender a pintar, a bordar, a fazer mosaico, aprender a tocar um instrumento. Mas, toda essa mudança salutar pode começar com ações muito simples, como por exemplo, exercitar os sentidos (visão, audição, tato, olfato, paladar). Todos os nosso sentidos desempenham um papel importante na nossa memória, e podem desencadear reações emocionais,um exemplo simples é que podemos nos lembrar, por meio de um cheiro, de uma determinada situação pela qual passamos, ou de alguém. 

A interação com outras pessoas é um forte antídoto contra a perda da memória, pois, impacta grandemente a saúde geral do nosso cérebro ao produzir múltiplos estímulos. Então, como prometi, seguem as dicas para manter o cérebro "malhado", e a dica mais importante de todas, a meu ver: EXERCITE O AMOR E NÃO ESQUEÇA DE SER FELIZ!"

1- MISTURE OS SENTIDOS EM VARIADOS CONTEXTOS: como se vestir com os olhos fechados, ou fazer a refeição em silêncio, sentindo a textura dos elementos, o sabor.
2- ATENÇÃO PLENA: ver fotos de cabeça para baixo faz com que seu cérebro se esforce para entender a imagem, para faze-la ter sentido, é uma dica fácil, não?
3- FAZER DAS ATIVIDADES ROTINEIRAS ALGO NÃO-TRIVIAL, OU SEJA, UMA NOVIDADE: você pode pegar um caminho diferente para ir ao trabalho, frequentar a feira livre, ao invés de ir ao supermercado.












As crianças são ótimas professoras no quesito aprendizagem. Notem como elas são curiosas, inquietas, como se interessam em aprender, conhecer, e desejam o novo, o diferente. Bem, acredito que este espírito desperto é um dos melhores remédios para uma boa memória, talvez por isso o Cristo tenha dito que precisamos "nascer de novo". Esse renascimento, já é assunto para uma próxima conversa, mas, certamente é algo que Mnemósine deve ter ensinado para as suas filhas, as musas, e elas estão aí (AS ARTES), quem quiser saber mais sobre isso, pergunte a elas. 
abraços dessa amiga, terapeuta e poeta
Renata Bomfim

ps: fonte da pesquisa:  Lawrence, C. K.;  Manning, R. Mantenha o seu cérebro vivo. Rio de Janeiro: Sextante, 2000.

14/03/14

O caráter transformador da Arte e da Criatividade (Renata Bomfim)




“O homem cria não apenas porque quer, ou porque gosta, e sim porque precisa; ele só pode crescer, enquanto ser humano, coerentemente, ordenando, dando forma, criando.”
Fayga Ostrower

A pesquisadora Fayga Ostrower declarou que o ato de criar só pode ser compreendido em sentido global, pois, a natureza criativa do ser humano se elabora no contexto sociocultural. Criar diz respeito a dar forma a alguma coisa, consequentemente, a ordenar, configurar, e esta ação fundamental humana possui um caráter simbólico. Estamos sempre em busca de significados, cada ato do ser humano traz em si o gérmen da compreensão, e a projeção de nossa ordem interior. Significar para, então, produzir, eis a alavanca da produção humana. A matéria plasma o desejo! A arte não é ciência e a ciência também não é arte, mas, esses campos espirituais se tocam e complementam como nos faz saber C. G. Jung: “o intelecto não consegue explicar nem muito menos entender a essência do sentimento”. Não podemos esquecer que trazemos dentro de nós a mentalidade mágica de nossos ancestrais que, diferente da forma como lidamos com as angustias e mistérios do existir, dispunham lado a lado, e sem grandes conflitos, a religião, a arte e a ciência. Portanto, evocamos aqui uma atitude de parcimônia ao refletirmos sobre a natureza da arte e da criação artística, é preciso uma espécie de abandono, de despojamento, especialmente dos preconceitos e dos radicalismos.
Será que a arte realmente significa? Já se questionou Jung na década de 1920. Bem, ela pode não significar e nem ter sentido alguma “arte é beleza, e nisso ela se baste a si mesma”, destacou o pai da teoria dos arquétipos. As indagações sobre o sentido da arte, não tem haver com a obra de arte em si, e nem com o que foi produzido, mas, com o indivíduo que a produziu. Para o conhecimento faz-se necessário um deslocamento do processo criativo, este precisa se tornar imagem para que possa ser analisado. A arte não é produto ou derivação, antes, um imbricado processo consciente/inconsciente de reorganização criativa. Jung afirmou que “o anseio criativo vive e cresce dentro do homem como uma árvore no solo do qual extrai seu alimento”. Criar é, portanto, revelar quem somos, é desnudar-se, abrir-se para a alteridade, fazer-se outro a partir do encontro consigo mesmo. Os processos subjetivos se tornam conscientes na medida em que são expressos, eles ganham forma, nome, cor, a partir da imposição de critérios de escolha elaborados pelo criador, eis um fato que não pode ser ignorado.
Nós herdamos características biológicas e qualidades comportamentais inatas que moldam as nossas consciências, mas, a estas se relacionam os fatores culturais. A partir de variados influxos buscamos interpretar os fenômenos que nos cercam, a traduzir e a ler o mundo. Os valores culturais funcionam como filtros que fazem com que as nossas escolhas estejam subordinadas a premissas que, de maneira alguma, isentam os valores culturais. Assim, ao falarmos de criação, podemos compreender o porquê é impossível desvinculá-la dos fenômenos culturais. A língua, por exemplo, é um balizador do imaginário e do pensamento, Ao selecionar as palavras e falar, ou escrever, o ser humano lança mão de um acervo cultural próprio que fará a mediação entre a sua consciência e o mundo. Na língua, desencadeado o processo imaginativo, o objeto real e físico se desloca para o real do objeto, ou seja, “a palavra evoca o objeto por intermédio de sua noção”, motivo pelo qual “o ser humano pensa e imagina dentro dos termos de sua língua, ou seja, das propostas de sua cultura”.
A criatividade é um bem que ultrapassa a esfera coletiva e alcança a social. Ela fomenta não apenas a realização pessoal, como afirmou Torre, mas também o desenvolvimento social. Criar tem haver com desenvolver potencialidades, gerar e alimentar idéias, enriquecer a cultura.Todo construir é um destruir, afirmou Fayga Ostrowe, a crise é um fator que estimula a criação. Atuam de forma dialética, durante o ato criativo-criador, valores como a liberdade e o limite. Pessoas criativas são, geralmente, pessoas complexas e possuidoras de um mundo interior plural e multifacetado. Seria um equivoco definir uma pessoa criativa, pois, dentro delas pululam multidões e se expressam múltiplas vozes sociais que, por fim, darão conta de comunicar os conteúdos coletivos do repertório humano.O potencial criador se realiza na busca do homem por captar a realidade e cristalizá-las em forma de comunicação. A produtividade sendo liberada ao invés de se esgotar, se amplifica e desdobra. Criar não implica um esvaziamento e nem uma substituição da realidade objetiva, antes, é uma intensificação do viver, e um vivenciar-se no fazer.
A motivação é um fator relacionado à criatividade e está imbuída de fatores psíquicos que impelem ao fazer. É através do trabalho que o homem elabora o seu potencial criador, ou seja, a criação se desdobra no trabalho. Ostrower argumenta que “nem na arte existiria criatividade se não pudéssemos encarar o fazer artístico como trabalho, como um fazer intencional produtivo e necessário que amplia em nós a capacidade de viver”. As ações do ser humano, seja nas artes, nas ciências, na tecnologia ou na vida prática e cotidiana, defende Ostrower, derivam de uma mesma sensibilidade, assim, irmanam-se os princípios ordenadores que regem o fazer e o pensar. Esta sensibilidade única parte da individualidade dando forma, por meio da linguagem e da imaginação, a subjetividade. É na matéria que a linguagem se materializa, fornecendo-nos referenciais para a comunicação, possibilitando ordenações e compreensão de sentidos vários. A matéria orienta a ação criativa, o que reforça a nossa crença no dialogo entre criador e criatura. Ao ser transformada a matéria não perde o seu caráter, antes, ela se ela diferencia, se transforma e ganha significado. Eis um dos mistérios da criação, ao configurar a matéria, o homem configura a si mesmo, se transforma. Criando, o homem se recria, deixa a sua marca, se afirma, simboliza, reflete, indaga, ou seja, a partir da criação modificamos nossa percepção, nosso enfoque vivencial e valores.
Inerente à condição humana, a criatividade provém de áreas ocultas de nosso ser, das quais não temos controle e, muitas vezes, nem mesmo conhecimento, pois são processos inconscientes. Os impulsos inconscientes adentram os processos criativos, bem como o arcabouço de vida do ser criador, suas vivências, seus valores, sonhos, angústias. Os processos conscientes não se desvinculam do processo criativo, ao contrário, é parte importante deste, por ser uma das dimensões humana. Os humanos são seres complexos, e não devem ser considerados em partes, a humanidade é plural e multifacetada, nesse contexto, as unilateralidades são uma forma desequilíbrio expresso por meio da doença. Muito se fala sobre a intuição, na maioria das vezes esta é considerada algo externo, mas ela faz parte deste não saber, que é saber inconsciente, e parte integrante dos processos de criação, assim como a percepção. A intuição é uma forma de conhecimento. No trabalho o homem intui, ele recebe sugestões da matéria e, a partir de conhecimentos já incorporados, faz escolhas e novas perguntas. Ao nos confrontarmos com novas realidades precisamos ordená-las, pois estas nos chegam inteligíveis, estes conteúdos, aliados ao contexto, ganham sentido e significado. Valores caros às organizações, como a inovação, muitas vezes são identificados como criação, mas esses são, na realidade, uma parte integrante e necessários ao processo de criação. Criar está para além da pura e simples invenção, visto que pressupõe dar forma a um conhecimento novo, que não está desvinculado da globalidade. Assim, inventar e criar são coisas diferentes, a invenção não vem imbuída de etapas que se desdobram, ela é algo novo, original, já a criação é processo.
Na contemporaneidade, muitas vezes, o conceito de valor se confunde com o de preço. Para a experiência de vida não existe preço. A autenticidade de uma pessoa não é algo comprável ou vendável, nem mesmo numa sociedade de consumo voraz como a nossa a experiência de vida pode ser reduzida a uma mercadoria. Eis uma grande falácia, valorar o dinheiro incorretamente. As realizações humanas não devem objetivas trazer lucro financeiro. Hoje, infelizmente, se o produto gerado pela criação não se tornar consumível pelo mercado, ele será tido como dispensável: falácia das falácias. O esvaziamento existencial provém desse processo de negligência do que é essencial, não podemos nos furtar das escolhas, dos julgamentos de valor, da reflexão constante e das conseqüências. A crise humana pressupõe a crise da criatividade. O excesso de individualismo compromete a criação, que nunca é uma questão, apenas, individual. A individualidade é um valor humano importante, ela é parte do acervo da humanidade, mas mesmo esta, depende de outro ser para estruturar-se. Acredito que o homem, desde os primórdios da civilização, buscou imprimir sua vontade à natureza, processo que culminou em um modelo mental de cunho colonialista, que na contemporaneidade se mostrou insustentável. Emerge a necessidade de uma nova forma de agir e de pensar que esteja pautado no dialogismo. Há muito o ser humano vive alienado de si mesmo, afirma Ostrower, agora, esse ser esquecido da sua origem (húmus), se depara com múltiplos desafios, é pressionado, convocado a desempenhar variadas funções, bombardeado por uma quantidade astronômica de informações. Adepto desse modo de viver ele extrapola o ritmo orgânico da vida e, contraditoriamente, ao invés de se integrar como ser individual e social ele se fratura e aliena.

Renata Bomfim
Arteterapeuta e educadora socioambiental